O preço da corrupção

Não há necessidade de denúncias para tomar conhecimento do estado precário das estradas brasileiras. A imprensa só confirma a realidade enfrentada por motoristas e transportadoras. Eles sofrem no veículo e no bolso os danos causados pelo tempo, pelo tráfego e pelas chuvas. Segundo o Banco Mundial, os 212 mil quilômetros de asfalto administrados pelo Poder Público roubam, por ano, a vida de 45 mil pessoas e desperdiçam nada menos de R$ 5 bilhões.

As causas do desperdício são velhas conhecidas. Entre elas, a corrupção sobressai. A malversação dos recursos públicos fica patente nas obras malfeitas, fruto das recorrentes operações tapa-buracos. O nome pejorativo traduz velha prática registrada nos três níveis da administração — União, estados e municípios. Em resposta a grita de usuários obrigados a percorrer as rodovias, o governo contrata o serviço sem licitação. As empreiteiras maquiam os problemas. Tempos depois, eles voltam agravados. E, outra vez, o processo se repete.

Mais: impõe-se levar em conta os fatores que aplainam o terreno do círculo vicioso da corrupção. Apesar de dispor de mais de 20 mil cargos de confiança (de provimento livre do administrador), o governo federal sofre de ineficiência crônica de quadros, incapazes de avaliar tecnicamente projetos quanto à concepção e a especificações que possibilitem cobranças posteriores.

Mal semelhante acomete os demais níveis da administração. As licitações, que levam em conta o menor preço, colaboram — e muito — com a negligência da qualidade. A fiscalização não fica atrás. Os órgãos de controle dos gastos públicos não cobram excelência de material empregado nas obras. Deixam a tarefa aos contratantes, que, por sua vez, também não fazem exigências do gênero. Em suma: o desperdício do dinheiro público navega na tolerância da legislação e dos gestores.

Tramitam no Congresso Nacional 116 projetos de combate à corrupção — 24 dos quais estabelecem mais transparência nos gastos públicos. Mas, apesar da urgência de que o tema se reveste, as propostas não andam. Ninguém discute a necessidade de debates e aperfeiçoamentos das propostas, imposição do regime de franquias democráticas.

Mas a discussão não pode se eternizar como ocorre com o Projeto de Lei nº 4.800/2001, que aumenta a pena de reclusão para os crimes contra a administração pública. A corrupção dá prejuízo que varia de R$ 45 bilhões a R$ 70 bilhões por ano. O dinheiro que engorda contas bancárias de poucos falta em escolas, hospitais, segurança. Já passou da hora de medidas eficazes punirem os ladrões de colarinho encardido.

Correio Braziliense – 19/07/2011

A corrupção e a opinião pública

Uma das razões que explicam a baixa adesão popular aos protestos anticorrupção no Brasil é o lugar que o tema possui na hierarquia dos problemas nacionais. Ele está longe de ser prioritário para a vasta maioria da população.

É sempre necessário conhecer o que pensam os cidadãos sobre os temas em debate no meio político. A opinião pública pode não ser a dimensão fundamental na democracia, mas é uma das mais importantes.

Suas preocupações e prioridades coincidem, muitas vezes, com as dos políticos e as da imprensa. Em outras, no entanto, não são as mesmas.

A corrupção, por exemplo. Deve ter sido a palavra mais usada no Congresso e na mídia nos últimos meses.

A temporada começou com as denúncias contra Palocci e não se encerrou. Pelo contrário. Outros ministros caíram, dezenas de funcionários foramdemitidos.

Os partidos de oposição, como é natural, se aproveitaram desses casos para focar o discurso. Seria ilógico que desperdiçassem a oportunidade, apesar do telhado de vidro e de saberem, no íntimo, que enfrentariam dificuldades parecidas às de Dilma, se tivessem vencido a eleição.

A mídia oposicionista avaliou que esse era um flanco a explorar no ataque a seu inimigo figadal, o “lulopetismo”. Deu-lhe, portanto, farta cobertura (mas, como sempre, sem dedicar uma linha a quem corrompe).

Ao longo do mês, um terceiro elemento (não separado dos anteriores) entrou em cena. A partir do Sete de Setembro, foram tentadas algumas manifestações de protesto civil contra a corrupção, das quais a maior ocorreu em Brasília. Todas foram modestas.

A mais recente, que aconteceu esta semana no Rio de Janeiro, chegou a ser patética, apesar do espaço que sua preparação recebeu nos veículos do maior grupo de comunicação da cidade (e do país) e da simpatia com que foi tratada. Só faltou convocar a população, explicitamente, a participar do evento.

Apenas 2,5 mil pessoas apareceram, entre manifestantes — a maioria motivada por outras questões — e a turma que costuma circular no centro das grandes cidades. Alguns empunhavam as velhas vassouras do piorudenismo.

Nada de semelhante às manifestações de massa em outros países. Do mundo árabe à Europa, passando pelo Chile e chegando aos Estados Unidos, grandes e entusiasmados protestos, especialmente de jovens, tornaram-se parte decisiva do processo político.

Uma das razões que explicam a baixa adesão popular aos protestos anticorrupção no Brasil é o lugar que o tema possui na hierarquia dos problemas nacionais. Ele está longe de ser prioritário para a vasta maioria da população.

Em pesquisa realizada há dois meses pela Vox Populi, foi pedido aos entrevistados que dissessem quais os três principais problemas do país (em pergunta espontânea, i.e. sem exibir lista). Como mais grave, a corrupção foi citada por 5% dos ouvidos e ficou em sexto lugar. Agregando as repostas de quem a colocou como um dos três mais relevantes, permaneceu na mesma posição.

Esses 5% podem ser comparados aos 38% que escolheram a saúde, aos 20% que citaram a segurança, aos 12% que responderam educação, aos 11% que mencionaram o desemprego e aos 5% que falaram em pobreza ou fome. Ou seja, não é uma preocupação central para muita gente.

Não se está aqui dizendo que seja pouco importante. As pessoas se preocupam com a corrupção e acham que é indispensável coibi-la.

Mas não consideram que o problema tenha se agravado ultimamente. Aliás, todas as pesquisas mostram que, quando se pedem comparações entre os governos do PT e do PSDB, a maioria acha que era mais sério antes da vitória de Lula.

Perguntadas sobre qual partido “tem políticos mais desonestos ”, as pessoas tendem a dizer “todos” (30%) ou (o que é parecido) não saber qual (36%). PT, PMDB e PSDB empatam, cada um com cerca de 8%, entre os que mencionam algum.

A corrupção não é, portanto, um tema que esteja pegando fogo na opinião pública. E não há, hoje, “culpados” claros por ela (como houve no passado, quando chegou a levar milhões de caras pintadas às ruas).

O mais importante, contudo, é que a grande maioria da população aprova o governo e confia na sua atuação. As pessoas acreditam que a corrupção é um dos muitos problemas que o país têm e que estão sendo enfrentados por Dilma.

É por que a opinião pública pensa assim que a “indignação” mobiliza tão pouca gente. Apesar dos esforços em contrário de alguns (poderosos).

Marcos Coimbra – Sociólogo e Presidente do Instituto Vox Populi
Correio Braziliense – 25/09/2011

Nosso trabalho é ganhar dinheiro com a crise

Por JULIANO MACHADO*

Por que as declarações sinceras de um consultor financeiro amador viraram um sucesso – e o que seu caso tem a nos ensinar

Ouvir o que parece ser a verdade da boca de quem só dizia mentiras é uma oferta tentadora. Ao ser entrevistado pela rede de TV britânica BBC, Alessio Rastani parecia um lobo da pior espécie exibindo com orgulho seus dentes e garras. “Os operadores não se importam com o pacote de ajuda à Europa. Nosso trabalho é ganhar dinheiro com a crise”, disse. Era como se um membro do Congresso ou dirigente esportivo brasileiro admitisse publicamente que, em suas atividades profissionais, o importante é levar vantagem em tudo. Finalmente alguém “do outro lado” parecia descrever a realidade como ela é.

Em pouco mais de três minutos de conversa, Rastani disse ainda frases como “o euro vai quebrar” e “toda noite vou para a cama e sonho com uma recessão”. Sua fala soava como uma chocante, mas sincera, admissão de ausência de escrúpulo. Aos olhos dos telespectadores, o sistema havia, finalmente, se mostrado nu. Rastani exibia um lado inédito da crise econômica, fenômeno que despertou enorme desconfiança e ceticismo da população dos países desenvolvidos sobre qualquer instituição – governos, porque têm se mostrado incapazes e omissos na condução da economia; e bancos e grandes fundos de investimento, porque continuam recebendo ajuda ou lucrando enquanto a maioria perde dinheiro. Cenário resumido assim por Rastani: “Os governos não mandam no mundo. O (banco) Goldman Sachs manda no mundo”. Justamente o Goldman Sachs, gigante americano acusado pelo governo de ter beneficiado megainvestidores em bilhões de dólares ao apostar contra investimentos imobiliários indicados a seus próprios correntistas.

Não demorou muito para que as opiniões se tornassem sensação na internet. Rapidamente Alessio Rastani estava nos tópicos mais comentados entre os usuários britânicos do Twitter. Mesmo quem o criticava nas redes sociais por aconselhar as pessoas a aproveitar a quebradeira para ganhar dinheiro não deixava de reconhecer sua “coragem” ao dizer a “verdade” sobre o mundo financeiro. Os pretensos objetivos e valores do sistema haviam sido revelados por um dos seus. Milhões de desempregados e falidos pareciam ter sido moralmente vingados.

A catarse diante dos comentários gerou dúvidas sobre a autenticidade de seu autor. Devido ao desprendimento de Rastani para expor suas opiniões, muitos acreditaram que a BBC fora vítima de um trote, outros especularam que Rastani poderia fazer parte do grupo Yes Men, cujos integrantes se passam por autoridades e representantes de grandes empresas. No final, para decepção dos crédulos, ficou claro que, se não era um completo farsante, ele não estava muito longe disso. Alessio Rastani, de 34 anos, nunca pisou em um escritório da City, o distrito financeiro de Londres. Diz fazer seus investimentos de sua casa, um sobrado no sul da capital britânica que pertence a sua mulher. “Operar no mercado é um hobby, não um negócio. Sou um orador. Busco a atenção das pessoas”, disse ao jornal The Daily Telegraph. A realidade fora pintada em cores mais fortes que as usuais, mas apenas por um operador amador, sem grandes posses. Não exatamente um impostor, mas tampouco um representante da elite.

O discurso de Rastani tocou no nervo de prejudicados pela crise, por isso foi um sucesso. Como num julgamento em que familiares da vítima anseiam que o assassino, além de condenado, admita a autoria do crime, os detratores das instituições financeiras queriam uma humilhação pública. Nada, porém, que pudesse aliviar a crise atual ou transformar a realidade. O mercado financeiro é uma entidade central para o capitalismo moderno e esteve no centro tanto de seu avanço nas últimas décadas como do colapso econômico de 2008. Descrevê-lo com as simplistas palavras de Rastani pode trazer popularidade, mas não oferece saída aos problemas atuais. “Dizer que o mercado não tem escrúpulos e ver a crise como oportunidade não é novidade. Mas, se todas as instituições fossem assim tão poderosas, evitariam a própria falência”, diz o economista Roberto Macedo, vice-presidente da Associação Comercial de São Paulo. “Os bancos europeus estão tentando mandar, ou seja, ser resgatados pelos governos. Mas isso não vai necessariamente acontecer.” O próprio Rastani luta por um lugar ao sol. De volta à TV, na americana CNN, ele revelou o plano de lançar um livro sobre lições aprendidas com o mercado. Pode ser sua chance de finalmente ganhar dinheiro com a crise.

Autor(es): JULIANO MACHADO
Época – 03/10/2011

Dois pesos, duas medidas

Essa eu tenho que contar. Acabou de acontecer.

Liguei no setor de Faturamento para saber se eles têm o número do patrimônio de uma certa impressora que está constando como instalada lá, mas na verdade não se encontra na sala.

A pessoa que atendeu disse que não tinha tal número e que eu devia ter que entrar em contato com o Setor de Material e Patrimônio.

Até ai tudo bem. Cada setor sem sua função e “serve” os outros setores na área em que é especializado. Acabei de entrar em contato com o Patrimônio para verificar o tombamento do dito cujo.

A questão do post é que esse caso já aconteceu antes, mas em papeis em versos. No fato ocorrido a muito tempo, fui eu quem recorreu aos serviços do setor de Faturamento. Pórem, o resultado foi outro.

Solicitei uma lista com todos os processos de compra do setor de informática… para o setor de compras! Queria saber qual o status de todos, se estão progredindo ou foram cancelados, etc. A resposta que obtive:

“- Entre em contato com a matriz. Lá eles poderão te informar sobre isso. Mande uma mensagem para eles”.

Impressionante. O setor de compras da filial, responsável por elaborar e acompanhar os pedidos de compras, não se presta ao serviço de informar sobre o fruto do trabalho próprio aos demais interessados.

Já a recíproca, é “obviamente” verdadeira para eles. O pior é que quando questionei a falta de informações, numa reunião anterior a isso tudo, o responsável por essas informações se irritou, mas na frente dos superiores da instituição, disse que quando eu precisasse era só consultá-lo.

Isto é Brasil.

Ministra brasileira condena na ONU qualquer violação de direitos humanos

Olá navegante!

Coloquei esse post aqui no meu blog por frisar uma situação muito importante: os países que lideram o mundo agirem somente quando for de seu interesse.

Como comentei no site da CartaCapital, a crítica é perfeita. Vide o caso do Golpe de Estado em Honduras, em que os países “democráticos de primeiro mundo” não moveram um pauzinho para evitar que um presidente democraticamente eleito fosse deposto baseado apenas em suposições e distorções, sem qualquer devido processo legal e sem respeito a constituição de honduras.

O mundo está cansado dos países que comandam o globo usarem suas forças, influencias, economia e organizações internacionais seletivamente e apenas em proveito próprio!!

Espero que gostem. Abraços.

 

“Nenhum governo se sustentará pela força”, diz ministra na ONU

Rede Brasil Atual – 1 de março de 2011 às 9:47h

Maria do Rosário afirma haver atuação seletiva das Nações Unidas, que deveriam avaliar violações de direitos humanos em todos os países

Por Guilherme Amorim*

São Paulo – A ministra da Secretaria dos Direitos Humanos, Maria do Rosário, discursou nesta segunda-feira (28) durante reunião extraordinária no Conselho de Direitos Humanos da Organização das Nações Unidas (ONU) sobre a situação do governo líbio e o destino de seu líder, Muammar Khadafi. Ela criticou as Nações Unidas por serem seletivas e atender a interesses políticos em suas diligências sobre as violações dos direitos fundamentais.

Maria do Rosario

Maria do Rosário: durante anos, governos silenciaram sobre o tema (Foto: Antonio Cruz/ABr)

Depois de lembrar dos compromissos de defesa dos direitos humanos propostos pela presidenta Dilma Rousseff, a ministra lembrou da ditadura no Brasil e de como a mobilização popular foi responsável pela restauração da democracia. “Nenhum governo se sustentará pela força e pela violência. Nenhum povo suportará, em silêncio, a violação de seus direitos fundamentais”, afirmou Maria do Rosário, em referência a Khadafi.

A ministra lembrou que, por muitos anos, alianças estratégicas entre governos silenciaram as discussões acerca da defesa dos direitos humanos. Ela reforçou a posição do Brasil como favorável às discussões e deliberações do conselho das Nações Unidas sobre o tema. “Estas discussões estiveram ausentes de discussão e deliberação neste Conselho, o Brasil defende que se debatam as violações dos diretos humanos em todos os países, onde quer que elas ocorram, mas é importante que delibere sem seletividade e sem politização”, declarou, para em seguida acrescentar: “O Brasil entende que posições econômicas e sociais não devem servir de pretexto para a violação dos direitos humanos. Todavia, a violação desses direitos tampouco pode ser um pretexto para ações unilaterais, sem o respaldo da comunidade internacional.”

Maria do Rosário lembrou que é preciso combater estereótipos, e que cada população tem o direito e a capacidade de avaliar e responder aos seus próprios anseios políticos. Ela disse que o problema do mundo árabe não é um embate entre extremos e que cabe à comunidade internacional respeitar as decisões dos manifestantes.

A representante do Brasil destacou a importância de se acolherem as pessoas que deixaram seus países em momentos de crise, e que as ondas migratórias não podem ser reprimidas. “(Essas questões) devem ser tratadas com humanidade, e sem xenofobia”, acrescentou.

A ministra finalizou falando da necessidade de observação permanente nesses locais de conflito, visando à melhoria gradativa e ao restabelecimento da normalidade da vida da população. Ela comentou da importância de impedir que um novo desequilibrio social se instale nessas regiões que passam por um momento de fragilidade.

A situação na Líbia continua instável, mesmo com a pressão internacional para o fim dos conflitos. No sábado (26), o Conselho de Segurança das Nações Unidas aprovou, por unanimidade, uma resolução de embargo à venda de armas para a Líbia e o congelamento dos bens de autoridades do país. Também ficou decidida a proibição de vistos para Khadafi e para pessoas ligadas a ele.

Por recomendação do Conselho de Segurança, o presidente líbio deve ser julgado pelo Tribunal Penal Internacional (TPI). Ele é acusado de crimes contra a humanidade cometidos durante as manifestações.

*Matéria publicada originalmente na Rede Brasil Atual

Fonte: http://www.cartacapital.com.br/politica/nenhum-governo-se-sustentara-pela-forca-diz-ministra-na-onu#comment-57544

 

CGU: 2.969 servidores foram expulsos na era Lula

O principal motivo para expulsão foi se valer do cargo para obter vantagens

A Controladoria Geral da União (CGU) divulgou balanço sobre demissões, destituições de cargos comissionados e cassações de aposentadorias aplicadas a servidores públicos do poder executivo durante os oito anos do governo Lula, de janeiro de 2003 a dezembro de 2010. No total, 2.969 servidores foram expulsos.
Segundo o balanço da CGU, 2.544 foram demitidos, 247 destituídos de cargos em comissão e 178 tiveram a cassação da aposentadoria. Em 2010, 521 servidores foram penalizados por práticas ilícitas no exercício da função.
Durante os oito anos do governo Lula, o principal motivo para expulsão foi se valer do cargo para obter vantagens (1.579 casos). Outros 988 funcionários públicos foram expulsos por improbidade administrativa. Os demais, foram punidos pelo recebimento de propina, 285, e lesão aos cofres públicos, 172.

A Era do Grunhido

Republico esse post do meu chará Flávio Gomes, jornalista e colunista do IG (no momento desse post). Esse blog dele foi criado exclusivamente para comentar sobre a COPA. A “Revista Veja” caiu nas graças do blog quando publicou uma reportagem sobre o evento no futebol conhecido como “Cala Boca Galvão”.

Revolvi fazer isso depois que fiz um curso de Gerência e a professora levou uma “Revista” Veja para um trabalho em grupo. Fiquei até triste.

Esse artigo foi um dos melhores postes que já vi sobre a “Revista” Veja. O senso de humor desse cara também é ótimo. Fala com muita desenvoltura.

Segue o artigo:

A ERA DO GRUNHIDO

Por Flávio Gomes*

O Brasil tem uma revista semanal, “Veja”, que se considera a maior do país. Deve até ser mesmo, sei lá quais são os critérios, não sei quantos leitores tem, quanto fatura, não me interessa. Deixei de assinar essa porcaria anos atrás, já não me lembro se por algum motivo específico, ou se foi, apenas, porque um dia peguei na porta de casa e me espantei: eu ainda gasto dinheiro com esta merda?

Tal revista perdeu a relevância, para estabelecer um marco, depois da queda de Collor de Mello. Naqueles anos de impeachment, as semanais deram vários furos, foram importantes, descobriram coisas. Depois, sumiram. Hoje, a “Veja” é reduto de uns caras chiliquentos como Diogo Mainardi, Reinaldo Azevedo e Augusto Nunes. “Ah, você não lê, como sabe?”, vai perguntar alguém.

Eu de tudo sei, tudo conheço. Piadinha interna.

Mas não quero falar aqui dessas figuras ridículas que acham que escrevem bem e que se julgam parte de algum grupo de pensadores contemporâneos, já que são cheios de fazer citações by Wikipedia e com elas impressionam seus leitores babacas. O que escrevem e dizem, para não ofender demais, repercute entre eles três e seus leitores babacas, todos compartilhados. Eles detestam o Lula e o PT, e é tudo que conseguem exprimir com sua verborragia enjoativa e padronizada. Mas dali não sai, suas opiniões e ataques histéricos contra o que chamam de esquerda brasileira não têm importância alguma, não produzem eco algum.

Só que a capa da “Veja”, embora a revista seja uma droga indizível, tem importância, sim. Afinal, ela é vista por alguns milhões de pessoas, repousa amarrotada durante meses em mesinhas de consultórios médicos, dentistas e despachantes, e as pessoas a notam nas bancas de jornais, ao lado de mulheres peladas. E algumas pessoas ainda puxam assunto em mesas de bares e restaurantes dizendo “li na ‘Veja’”, e tal. São os “formadores de opinião”. Uau.

E aí aparece aqui na minha frente, no estúdio da rádio, a ”Veja” que foi hoje às bancas. Na capa, “CALA BOCA GALVÃO”, uma foto do narrador da Globo, e está dada a senha para uma pretensa reportagem séria de sete páginas, um “box” e três gráficos sobre o poder do Twitter, motivada por uma bobagem infanto-juvenil que nem os “tuiteiros” levam muito a sério, lançada no dia da abertura da Copa. Aliás, nem o Galvão levou a sério, claro, porque discutir um uma “hashtag” de Twitter é como sugerir um seminário para analisar a musicalidade de uma vuvuzela, ou um congresso sobre comunidades bizarras do Orkut.

Ontem morreu José Saramago. O maior escritor da língua portuguesa mereceu desse semanário indefensável meia página, com uma foto e uma legenda editorializada, porque ”Veja” tem opiniões formadas até sobre índice e numeração de páginas. Diz a legenda: “ESTILO E EQUÍVOCO”, reduzindo Saramago a isso, a alguém que tinha estilo e era equivocado, para atacar as posições políticas e religiosas do escritor, comunista e ateu.

Alguém ser comunista e ateu, para a “Veja”, é algo mais condenável do que estuprar a mãe no tanque. “Ao lado da criação literária, manteve-se sempre ativo, e equivocado, na política”, diz o texto pastoso, que nem assinado foi. Uma pobreza jornalística inacreditável. “Nos países cujos regimes ele defendia, nenhum escritor que ousou discordar teve o luxo de uma morte tranquila”, encerra o autor. Como é que alguém pode escrever uma merda desse tamanho? Será que essa gente não tem vergonha do que coloca no papel?

Pois todas as palavras ditas e escritas por Saramago, capaz de obras-primas da literatura universal como “O Evangelho Segundo Jesus Cristo”, “Ensaio Sobre a Cegueira”, “Todos os Nomes”, “Memorial do Convento”, “Caim”, “Jangada de Pedra”, mereceram da “Veja” meia página, enquanto três palavras bobas espalhadas pelo Twitter foram parar na capa da revista e em sete de suas páginas.

O que mais me atormenta, quando vejo essas coisas, é saber que graças a decisões editoriais como essa, uma babaquice como o “CALA BOCA GALVÃO” assume, diante dos olhos e do julgamento dos retardados que levam tal revista a sério, uma importância bem maior do que a vida e a obra de Saramago.

Saramago pedindo um café a sua esposa tem mais conteúdo, provavelmente, do que todas as edições juntas de “Veja” dos últimos 15 anos. Ele tinha razão, quando falava do Twitter — não se enganem, Saramago tinha até blog, não era um velhote vivendo numa caverna. Numa recente entrevista por e-mail a “O Globo”, disse: “Nem sequer é para mim uma tentação de neófito. Os tais 140 caracteres reflectem algo que já conhecíamos: a tendência para o monossílabo como forma de comunicação. De degrau em degrau, vamos descendo até o grunhido”.

Pois a “Veja”, hoje, inaugurou a era do grunhido impresso.

* Flávio Gomes é jornalista, piloto e escritor. Atualmente possui uma colunista no IG.

Link desse Artigo: http://colunistas.ig.com.br/copa2010flaviogomes/2010/06/19/563/

Blog do Flávio Gomes: http://colunistas.ig.com.br/flaviogomes/

Sala, copa e cozinha

Por Michel Blanco*. 05.11.10 – 17h33

Uma jovem estudante de Direito, desalentada com a vitória da petista Dilma Rousseff, ganhou fama ao clamar no Twitter o afogamento de nordestinos em benefício de São Paulo. O ódio da moça brotou em meio a uma campanha difamatória que irrigou expedientes eleitoreiros. Se na TV o marketing cuidou de dar boa aparência aos candidatos, na internet a coisa foi feia. Levante a mão quem não recebeu um único spam desqualificando os votos da população assistida pelo Bolsa Família. Sobre tal corrente, a psicanalista Maria Rita Kehl disse o que tinha de ser dito – e foi punida por isso. Assim estávamos na campanha…

A xenofobia da estudante paulista, no entanto, não é retrato das tensões do momento. É uma fotografia embolorada, guardada num fundo de armário, agora trazida à tona. Quem triscou fogo nos spams sabia que o ódio fermentava. Bastava uma faísca. Se tiver estômago, pode ler uma coletânea de tweets odientos — e odiosos — no Diga não à Xenofobia. A menina não está só.

A maioria dessas mensagens parte de jovens de mais ou menos 25 anos. O que leva a supor que muitos deem vazão a preconceitos ruminados à hora do jantar em família, da festinha do sobrinho ou do churrasco da faculdade. Está aí boa parte da festejada geração da internet, que confunde vida real com a vida em rede, mas se sente imune às consequências de atos online. Mostram os dentes no Twitter como se estivessem a salvo da luz do dia, como se não fosse dar nada. Mas deu, mano.

A moça que gostaria de afogar um nordestino em São Paulo acabou ela mesma por submergir. Deletou seu perfil ante a repercussão do caso, que lhe rendeu a protocolação de uma notícia-crime pela OAB de Pernambuco no Ministério Público Federal em São Paulo. O escritório de advocacia onde estagiava apressou-se em dizer que ela não despacha mais por lá. O caso foi parar até nas páginas do britânico Telegraph. Vários outros “bacanas” seguiram os passos da menina e desapareceram do Twitter. Talvez arrependidos do um ato impensado, da ausência completa de reflexão ou, mais provável, da ameaça de punição legal. Quem sabe ainda há tempo para deixar as trevas.

Ironicamente, o aguardado uso da internet nas eleições ajudou a liberar o que há de mais retrógrado entre nós (embora o poder transformador da rede esteja muito além disso). Parecemos recuar 50 anos em relação a direitos civis. Houve até o retorno de mortos-vivos, grupos pouco representativos e de triste memória. Não bastasse o proselitismo religioso, a ação das militâncias, oficiais e oficiosas, a campanha na internet descambou para baixaria geral. Conhecido o resultado da eleição presidencial, viria o pior: o insulto aos eleitores, desclassificando-os.

Enfim, é uma questão de classe; não de compostura. Uma parte dos jovens que se julgam classe A levantou-se da sala de jantar para reinstaurar a separação da copa e da cozinha, sem se dar conta de que a divisão dos cômodos já não é tão sólida. O que move tanto ódio? Passionalidade do clima eleitoral não é o suficiente.

Nunca na história deste país (tá, essa foi só para provocar) se falou tanto em classes C e D e E. Estão todos os dias na imprensa; chamam atenção pelo crescente poder de consumo. E é a isto que a noção de classes parece se resumir hoje: consumo. Talvez esteja aí a raiva dessa moçada, muito mais identificada com bens do que com valores.

Identificar-se por aquilo que se consome pressupõe um sentimento de exclusividade. “Eu tô dentro e eles, fora”. Uma concepção de vida alimentada e também confrontada pela massificação do consumo. A tensão desponta quando “eles”, os esfarrapados, começam a ter o que “eu” tenho. A exclusividade mingua, e o povão chega chegando, sentando ao seu lado no avião. É preciso descolar novos meios para diferenciar uns dos outros. A desqualificação é um deles.

Um dos legados desta eleição embalada por baixarias é uma tensão que parece escapar da acomodação sobre a imagem construída pelo mito fundador nacional. Descobrimos um pensamento ultra-conservador no Brasil, e ele pôs a cabeça para fora. Seria um exagero, no entanto, dizer que o país está dividido. Mas é igualmente um equívoco considerar que a identidade nacional sai ilesa – por definição, ela é lacunar, ao pressupor a relação com o outro. O que queremos de nós mesmos?

Mas na cabeça dessa moçada raivosa, nada disso seria necessário, e a harmonia se restabeleceria desde que todos estivessem nos lugares “certos”. Assim, estão prontos para experimentar o que consideram desenvolvimento e mal esperam a ocasião para pôr à mesa de alguma congregação do Tea Party uma iguaria nacional: uma saborosa broa de milho feita pela mãos da preta dócil que serve a casa.

* Michel Blanco é editor sênior do Yahoo! Brasil e mestre em Relações Internacionais (PUC-SP).  Contato: michelblanco@rocketmail.com

Fonte: http://colunistas.yahoo.net/posts/6225.html

O governo Dilma e a Comunicação Social

Por Marcelo Salles*, 03 de Novembro de 2010.

“A Comunicação é uma missão social. Por isto, juro respeitar o público, combatendo todas as formas de preconceito e discriminação, valorizando os seres humanos em sua singularidade e na luta por sua dignidade” (Juramento do Jornalista Profissional)

Segundo a jornalista Marilia Gabriela, a vitória de Dilma foi apertada. 12 milhões foi pouco pra ela. Uma Bolívia inteira de votos não bastou, como não foi suficiente para convencer a maior parte dos intelectuais da direita e de seus arautos. “A oposição vai governar 54% do eleitorado” é a frase mais comum a flutuar pelo vasto oligopólio da mídia.

De fato a direita ganhou importantes governos estaduais. Ocorre que, para a infelicidade dela, o campo progressista também venceu importantes governos estaduais. E mais: 60% da Câmara dos Deputados e 70% do Senado Federal. Talvez o Congresso Nacional mais à esquerda que o Brasil já viu. Mas como parte da direita não enxerga o Brasil…

A primeira entrevista de Dilma, depois de eleita, foi para a TV Record. Nem o Lula, que é o Lula, ousou desafiar a supremacia da TV Globo. Se a iniciativa vai se traduzir em ações concretas de combate às irregularidades das empresas de mídia, que violam descaradamente a Constituição Federal, isso só o tempo vai dizer. É preciso ficar atento para os novos ministros das Comunicações, Educação, Cultura e Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República. Seja como for, não dar a primeira entrevista à Globo tem um valor simbólico gigantesco.

Por um motivo muito simples: a TV Globo, inaugurada em parceria com o grupo estadunidense Time-Life um ano depois da ditadura, foi o principal sustentáculo do regime autoritário que seqüestrou, torturou e assassinou milhares de brasileiros.

Vamos à opinião de quem trabalhou por 10 anos na Fundação Roberto Marinho, inclusive ocupando o posto mais alto da organização, a de controller. Roméro Machado:

- O escândalo Globo/Time Life não é meramente um caso de um sócio brasileiro (Roberto Marinho) que aceita como sócio uma empresa estrangeira (Grupo Time-Life), contra todas as leis do país. O escândalo Globo/Time-Life é mais do que isso. É antes de mais nada um suporte de mídia que visava apoiar, dar base, sustentação e consolidar a ditadura no Brasil, apoiada e supervisionada pela CIA, por exigência dos Estados Unidos, comandado por terroristas da CIA, como Vernon Walters e Joe Walach, sendo este último com emprego fixo na Globo, como “representante” do grupo Time-Life.

Dilma lutou contra essa ditadura, e ela sabia muito bem que a tortura foi utilizada como instrumento de controle social, assim como a Globo, para permitir a desnacionalização das economias latino-americanas. A jornalista Naomi Klein, no livro “A doutrina do choque”, mostrou de modo lapidar a relação dos regimes autoritários com a implementação do capitalismo neoliberal em Nuestra América. Foi no Chile o laboratório. Foi no Chile de Pinochet que os Chicago Boys, sob a orientação do economista Milton Friedman, fizeram a festa. O receituário é conhecido: privatizações, redução do Estado e abertura econômica indiscriminada. Rigorosamente o contrário do caminho adotado pelo Brasil e pelos países latino-americanos que conquistam avanços importantes.

Por isso é muito significativa a escolha da presidenta eleita.

Não é o fato de a TV Record ter sido a escolhida, apesar de lá existirem profissionais competentes e que não estão impedidos de fazer jornalismo por forças superiores. O fato é que a Globo foi preterida. E com isso, toda uma lógica foi declinada.

Do ponto de vista da comunicação, podemos antever basicamente dois caminhos para o governo Dilma – caminhos esses que vão influir, em grande medida, no desenvolvimento do Brasil e dos demais países da América Latina:

1) O novo governo escolhe o caminho da conciliação com as Organizações Globo, para minimizar conflitos e poder seguir sem muitas turbulências com sua agenda política. Isso significa não mudar significativamente a política de radiodifusão.

2) Resolve tocar a sua agenda política para a radiodifusão sem pedir autorização para ninguém, o que significa, entre outras medidas: adotar as principais resoluções da Conferência Nacional de Comunicação, como proibir a propriedade cruzada, aproveitar a digitalização para democratizar o espectro radioelétrico, estimular o desenvolvimento de veículos de comunicação alternativos, fomentar a criação de um conselho para os profissionais da mídia e, óbvio, fazer valer a Constituição Federal nos artigos que tratam da Comunicação Social – 220 a 224.

No primeiro caso, poderemos esperar avanços tímidos no campo da comunicação. No segundo caso, uma revolução pode ter início. Seja como for, é fundamental alertar: qualquer caminho que seja adotado terá conseqüências diretas para toda a sociedade, considerando que a mídia tem poder suficiente para interditar debates ou impor as pautas de seus próprios interesses. E essas conseqüências virão para o bem e para o mal, e a depender da correlação de forças. 55 milhões de votos e as maiorias no Senado e na Câmara são bons auspícios. Mas uma Bolívia faz toda a diferença.

Observação: se os movimentos sociais, os partidos políticos, a academia, as associações de classe e demais organizações da sociedade civil ficarem esperando que o governo faça tudo sozinho, nada vai acontecer.

(*) Marcelo Salles, jornalista, foi correspondente da revista Caros Amigos no Rio de Janeiro entre 2004 e 2008. Atualmente é correspondente da Caros Amigos em La Paz (Bolívia), editor do jornal Fazendo Media (www.fazendomedia.com) e membro do Intervozes – Coletivo Brasil de Comunicação Social.

Fonte: http://www.fazendomedia.com/o-governo-dilma-e-a-comunicacao-social/